quinta-feira, 19 de abril de 2012

Espaço do Mestre-- Jacques Cousteau

O Terceiro Infinito

Há alguns anos, quis manter dentro do oceano um olho aberto de forma permanente, de modo que equipei a proa do meu navio, o Calypso, com um observatório submarino. Nessa altura, estava convencido de que os oceanos eram imensos, estavam repletos de vida e tinham todo o tipo de recursos. Durante longos percursos pelo Oceano Indico ou pelo Atlântico, passei muitas horas, tanto de dia como de noite, observando através dos meus postigos submarinos, sonhando com o capitão Nemo e o seu Nautilus. Mas pouco tempo depois, tive que aceitar a evidência: as águas azuis do mar aberto tinham, na maior parte das vezes, o aspecto desalentador de um deserto. Como nos desertos terrestres, estava muito longe de estar morto; mas o ingrediente vivo, o plâncton, formava uma camada delgada, como uma neblina, ligeiramente visível e monótonaPara além disso, em raras ocasiões, havia zonas que se convertiam em lugares de reunião; perto das margens ou nos baixios, ao redor das algas flutuantes ou de restos de naufrágios, costumavam reunir-se os peixes, oferecendo um espectáculo de vitalidade e beleza. Depois de mergulhar durante anos, descobri que acontece o mesmo no fundo do mar. Aí, bem como na zona intermédia, podem ver-se desertos intermináveis, no meio dos quais aparece, de vez em quando, um oásis exuberante.

A teoria do oásis iria ajudar-me a compreender que o oceano, apesar da sua grandeza, se medido numa escala humana, não é mais que uma delgada camada de água que cobre a maior parte do nosso planeta (que, de facto, é um mundo muito pequeno), que é extremamente frágil e que está à nossa mercê. Contudo, a vida teve origem no oceano primitivo, há aproximadamente, três mil e quinhentos milhões de anos em forma de células muito simples. As explorações mais recentes do espaço exterior demonstraram que o nosso planeta Terra (que é denominado planeta Água) é o único em todo o sistema solar que está dotado de consideráveis quantidades de água em estado líquido. A vida, que nasceu na água, deve ser pelo menos tão escassa como a água no universo, e por isso merece ser reverenciada, em qualquer das suas formas, como um milagre. Mergulhando em mar aberto, encontrei salpas, criaturas gelatinosas em forma de barril, unidas entre si, formando maravilhosas cadeias vivas de trinta metros de comprimento, que sem dúvida inspiraram a lenda do cinto divino de Vénus; a visão de uma Medusa, uma delicada cúpula transparente de cristal palpitante, sugeriu-me de forma irresistível que a vida se identificava com o sistema aquático do nosso planeta.

Noutra ocasião, quando mergulhava no mar Vermelho, no arquipélago que está em frente de Suakin, descobri que a água era tão clara, que os tubarões e as barracudas pareciam suspensos em um nada tridimensional, ao redor de exuberantes comunidades de recifes coralinos, uma mistura de zonas coloridas e de seres alvoraçados que nadavam, flutuavam, se arrastavam e simplesmente ali estavam; no recife reinava um grande barulho: coros de suaves rangidos, grunhidos e silvos executavam uma vibrante sinfonia em honra dos milagres da vida e da morte. Ai aprendi que na variedade está a essência de um sistema de vida saudável.

No mar de Oman, ao norte e a noroeste da costa da Somália encontrei inteligência nascida do mar: baleias, cachalotes, orcas e delfins, Os mamíferos marinhos demonstravam a sua força, a sua velocidade, a sua habilidade. E quanto mais observava as criaturas do mar, mais semelhantes me pareciam ás que vivem no nosso mundo seco. O comportamento dos peixes, das lulas, das aves ou das baleias rege-se pelas mesmas motivações básicas que o das serpentes dos insectos ou dos macacos. Na Minha opinião, era uma linda forma de comprovar a unidade da vida.

A ilha da Assunção, isolada no oceano Indico, ao norte de Madagáscar, era um dos santuários submarinos mais ricos que visitei em toda a minha vida: mas quando regressei, treze anos depois, comprovei o grande dano sofrido pelo extremo coralino da ilha, devido tanto à pesca indiscriminada como à contaminação. Tomei consciência então da fragilidade dos ecossistemas marinhos. Lamentavelmente, tive em seguida que reconhecer que todos os oceanos do mundo se estavam a deteriorar rapidamente. O mero tinha praticamente desaparecido no Mediterrâneo; a Grande Barreira de Recifes decaia pouco a pouco; os jardins de corais da Nova Caledónia estavam asfixiados e enterrados sob milhões de toneladas de desperdícios procedentes de um enorme complexo de extracção de níquel; dizimavam-se as baleias no Antárctico. Os homens não constituíam uma excepção: visitei os quase extintos Kawashkars do sul da Patagónia, os últimos nômades do mar autênticos que ainda existem e estão a ponto de desaparecer; um povo andrajoso que, durante milénios, conseguira nu nos seus barcos, mergulhando na agua gelada para pescar amêijoas; actualmente restam menos de vinte. A fragilidade do ambiente marinho, a fragilidade do homem, assim como a precariedade dos recursos, são factos que temos que ter em conta.

Ao nível do mar, as ondas escavam grutas nas rochas e a erosão marinha cria praias de areia. Abaixo deste nível também se podem encontrar grutas e praias deste tipo, o que demonstra que, durante os períodos glaciares, a superfície dos oceanos se encontrava bastante mais abaixo do que na actualidade. Por sua vez, se se derretessem, a superfície subiria consideravelmente. Há dezassete mil anos, o estreito de Bering estava seco, as hordas de caçadores asiáticos passaram da Sibéria ao Alasca a pé e povoaram a América do Norte; os locais onde estão construídos a maioria dos nossos portos modernos (como os de Nova Iorque, Londres ou Tóquio) estavam a 150 metros de altura. É possível que esses mesmos portos se encontrem a 60 metros de profundidade dentro de poucos séculos. Na realidade, o mar condiciona todas as actividades humanas, gera a chuva, as inundações ou as secas, provoca mudanças constantes, tão lentas como bruscas, graduais como catastróficas. O nosso futuro líquido depende da previsão, do cuidado e do amor com que tratamos a nossa única fonte de água: os oceanos.

Entretanto o diminuto pulsar da vida, que floresce no meio do mar, continua a converter brilhantes gotinhas de água em jóias viventes. O milagre da vida desafia a lei universal da degradação, cria moléculas orgânicas extremamente complexas, organiza a matéria caótica em estruturas incrivelmente programadas, compostas por biliões de células. A contemplação da vida inspirou ao padre Teilhard de Chardin a sua meditação sobre os três infinitos: alem do infinitamente grande e o infinitamente pequeno, Teilhard falou-nos no infinitamente complexo a VIDA.

Texto por JACQUES COUSTEAU - oficial da marinha francesa, documentarista, cineasta e oceanógrafo mundialmente conhecido por suas viagens de pesquisa, a bordo do Calypso.

Abraços

Ace

Um comentário:

Luti disse...

Massa o texto!